Nunca na história houve uma queda tão rápida e brutal nos mercados financeiros ao redor do mundo. O pânico gerado pelo coronavírus foi implacável trazendo uma fuga em massa de capital que atingiu drasticamente os preços da grande maioria dos ativos. A situação com o Bitcoin não foi diferente, criando o cenário perfeito para muitos gestores de investimentos, que pouco conhecem os fundamentos da criptomoeda, se aproveitarem para apontar os dedos e dizer que está comprovado que ela não serve como reserva de valor para épocas de crise.

Pablo Spyer, Fernando Ulrich, Samy Dana entres outros podem até estar certos sobre a crise ter atingido o Bitcoin, mas talvez devessem repensar suas posições sobre ele não servir de porto seguro em tempos de crises. Afinal, são em momentos de dificuldade que os ativos tem chances de mostrar sua resiliência e se destacar por sua singularidade.

Escassez de dinheiro

Em diversas partes do mundo como no Egito, Índia, Zimbabwe e até mesmo em New York, surgiram casos de pessoas que estavam com dificuldade de retirar dinheiro. Em alguns desses países foram impostos limites por determinação governamental, enquanto em outros a dificuldade se deu pelo excesso inesperado de demandas locais por cédulas. Independente da causa, isso resulta em uma profunda angústia nas pessoas que entregaram sua confiança e no momento em que mais precisam não conseguem acessar ou transacionar suas economias. O bitcoin, por outro lado, se manteve firme, sem congestionamento na rede, funcionando ininterruptamente de maneira decentralizada.

Proteção cambial

Embora o Bitcoin tenha caído mais do que o real quando em comparação com o dólar, isso não necessariamente se manterá assim. Os brasileiros já estão acostumados a ver a moeda apresentar quedas bruscas por conta de cenários políticos complicados. Dessa vez, durante o ápice da crise sanitária, nosso congresso voltou a conflitar e aprovar pautas-bomba que sacrificam a saúde financeira do nosso país, derrubando um veto que custará cerca de R$ 20 bi ao ano. Portanto, muito além da queda momentânea, devemos lembrar e reconhecer que além da crise global, existe sempre a possibilidade de uma crise local, e que para esse caso o Bitcoin já salvou diversas famílias de crises profundas que atingiram países da América Latina como Venezuela e Argentina.

Intervenção e injeção

A lei da oferta e demanda é o modelo base para a determinação dos preços. No caso do Bitcoin, por ser limitado a 21 milhões de unidades, a moeda tende a valorizar de acordo com a demanda. As outras moedas são diferentes, pois seus emissores estão o tempo todo intervindo em seu respectivo número de circulação. Para se ter uma ideia, os Estados Unidos possuem cerca de 15.7 trilhões de dólares em circulação. Sempre que acontece uma crise, o governo americano injeta altas somas de dinheiro, diluindo a oferta de dólares como uma forma de estimular o consumo. Até o momento, apenas para combater o coronavírus, o Banco Central americano resolveu injetar 4.5 trilhões de dólares a mais, isso equivale a quase todo o número de dólares que havia em circulação durante os anos 2000.

Livre Mercado

Quedas acontecem com frequência, durante a crise de 2008 o ouro chegou a sofrer uma queda de quase 40%, e ninguém disse que ele não servia de reserva de valor, depois disso valorizou 250%. É possível que a queda do Bitcoin tenha acontecido pelo mesmo motivo que a do ouro, entidades insolventes e alavancadas podem ter sido obrigadas a liquidar suas posições de maneira abrupta. Além do mais, é necessário ser justo e compreender que no caso do Bitcoin é o livre mercado quem manda, não dá para banirem short (opção de venda) de Bitcoin, como aconteceu na China e na Espanha, ou ativarem circuit breaks para limitar as quedas, o que torna injusta uma comparação direta com qualquer investimento que sofre maior interferência de órgãos reguladores.

Limitado eletronicamente e acessível para ser transacionado de qualquer lugar que tenha acesso à internet, o Bitcoin mais do que nunca está provando ser um ativo versátil, seguro e construído desde o princípio para ser uma moeda que liberta seus donos. Seus fundamentos continuam lá e o longo prazo provará que a moeda serve como reserva de valor.